Uma garota quase enlouquecida
Quando uma garota enlouquecendo tenta te explicar o inesplicavel.

Naquele dia, a chuva caia lenta. Fazia um barulho baixo no telhado da casa de meu pai enquanto eu tentava impacientemente dormir. O suor que meu corpo produzia descia pela minha nuca como se estivesse desfilando de modo desengonçado. Tentei reprimir a vontade de beber um copo d'água, eu era medrosa e somente sairia dali do sofá quando uma nave de extraterrestres pousasse no carpete surrado da sala e me chamasse para tomar um chá, coisa que não iria acontecer, eu espero pelo menos que não.
Ao menos se eu não tivesse medo de coisas tão mediócres quanto o escuro, eu saberia me virar sozinha sem ajuda de ninguém. Pensei se deveria chamar papai, ele com certeza levantaria e iria buscar água pra mim, mas eu resolvi que seria forte. Isto era ridículo! Eu tinha coisas demais para me preocupar, e não ficar chateada por que minha garganta estava sendo arranhada por unhas afiadas de sede, pensei eu que isto era psicológico. Se eu pensasse que já havia ido a cozinha e tomado água, talvez eu conseguiria enganar eu mesma de uma forma boba.
Ah eu já bebi água, e estava uma delicia. Aquele liquido sem cheiro, sem cor ou sem sabor, um pouquinho doce... Estava realmente uma delicia, não bebi somente a água e sim a vitória junto! De poder e ter a coragem de sair do sofá em que eu me encontrava dormindo de quinze em quinze dias, duro. Com as almofadas desgastadas e enrolada num cobertor velho que foi uma das poucas coisas que minha mãe não se permitiu a levar junto consigo mesma.
-Você já bebeu água! - Falei a mim mesma feito uma louca.
Bem, você deve estar se perguntando, o por que de uma garota ficar tanto tempo pensando em um copo de água, ou por que eu não dormi ainda. E eu devo responder a você, que eu tenho problemas maiores do que sede, problemas muito maiores que isto, coisas que somente eu posso resolver. E se você ainda acha que sou idiota demais para resolver uma separação de pais, ajudar uma amiga drogada, ou ser traída pelo namorado... Eu não sou tão tonta, mas desde que eu resolvi que encararia meus problemas com responsabilidade. Consegui encarar tudo de cabeça erguida, com sucesso. Deixando o medo que eu tinha destas coisas, para ser substituído por medo de escuro, ou simplesmente da má sorte.
E se perguntam até hoje, quem é essa menina maluca que tem medo do escuro e não mais de ser traída pelo namorado infiel?
Eu sou a dona do diário de bordo mais comentado no colégio e no meu país! Eu sou a garota. A garota quase enlouquecida.

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